Neste texto, trarei alguns dados e reflexões sobre a realidade atual do programa do jovem aprendiz no Brasil, buscando disseminar conhecimentos que fomentem boas práticas.
O Brasil está entre os países com a maior desigualdade social do mundo, com uma grande concentração de renda. Com isso, muitas famílias vivem uma realidade de pobreza, fazendo com que os jovens embarquem cedo no mercado de trabalho, buscando contribuir para a renda familiar. Nunca me esqueço de um aprendiz com quem trabalhei, que disse a seguinte frase: “os ricos enxergam nos filhos um gasto, os pobres enxergam no filho uma ajuda”.
Com isso, o programa do jovem aprendiz atende essa demanda da nossa realidade, trazendo dignidade e formalidade para o trabalho dos jovens, além da capacitação profissional. De acordo com os dados do Ministério do Trabalho e Emprego, neste ano de 2026 batemos recorde de contratação de jovens aprendizes no Brasil, com mais de 726 mil aprendizes no mercado de trabalho. Somente entre janeiro e abril deste ano, o país registrou um saldo positivo de quase 55 mil aprendizes contratados. A indústria e o setor se serviços lideram as contratações, representando quase 80% dos novos contratos de aprendizagem, com a maior parte dessas vagas voltadas para serviços administrativos e produção industrial. Olhando para o perfil dos jovens contratados, quase 53% deles são do sexo feminino, e já se tratando de etnia, 47% se declaram pardos, 41% como brancos e quase 10% são pretos. Analisando a faixa etária dos jovens aprendizes, 65% deles tem até 17 anos de idade.
Partindo disso, trarei algumas reflexões. Inicialmente, analisando o perfil étnico e de gênero, este corresponde de maneira muito fiel ao perfil da população brasileira em geral. Podemos deduzir que o programa do jovem aprendiz não reproduz discriminações estruturais de gênero e raça, vivenciadas em tantas áreas da sociedade brasileira? Além disso, devemos questionar: o que o programa do jovem aprendiz está fazendo para atingir esses resultados? Isso tem relação com a vinculação direta entre um ambiente educacional e o ambiente de trabalho? Como o mercado de trabalho pode aprender com isso?
Acho fundamental também analisarmos a questão da faixa etária, já que a maior parte dos jovens estão em idade escolar. No Brasil, o principal motivo dos jovens abandonarem a escola é exatamente o trabalho. Mas se o programa do jovem aprendiz exige a matrícula na educação básica como critério para a manutenção do contrato de trabalho desses jovens, podemos considerar o programa como uma ferramenta de combate a evasão escolar? De acordo com dados do Ministério da Educação, a evasão escolar caiu 43% nos últimos dois anos, coincidindo com o período de vigência do programa do governo federal chamado “Pé-de-meia”, que funciona como uma poupança destinada para jovens do ensino médio público brasileiro, mas também coincidindo com o auge do programa do jovem aprendiz na história do nosso país. Podemos enxergar uma relação nestes dados?
É óbvio que essas análises precisam ser aprofundadas, levando em conta nuances e contextos, mas acredito que os questionamentos aqui colocados sejam válidos, demonstrando a importância do programa do jovem aprendiz para a realidade brasileira e abrindo caminho para o combate de problemas estruturais da nossa sociedade, como questões envolvendo o endividamento e a baixa renda das famílias, discriminações no mercado de trabalho e a evasão dos jovens da educação básica, principalmente no ensino médio.
Francisco Coutinho de Medeiros


