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Quando foi a última vez que alguém discordou de você?

Pare por alguns segundos e pense: quando foi a última vez que alguém discordou de você? 

Não estou falando daquela discordância tímida, acompanhada de um “é… talvez”, ou ainda um “está muito bom, mas precisamos amadurecer essa ideia”. Estou falando de alguém que olhou para você e disse: “Eu não concordo”. E o que aconteceu depois? Você ouviu? Tentou entender? Ou começou imediatamente a construir seus argumentos para preparar a sua defesa? 

No ambiente de trabalho, isso acontece o tempo todo. Alguém apresenta uma ideia e, antes mesmo de terminar, já estamos pensando no problema. Alguém traz uma opinião diferente e, enquanto ainda fala, nossa cabeça já está construindo uma resposta. Às vezes, nem esperamos: já saímos cortando a fala do outro para contar aquela história que prova que já passamos exatamente pela mesma situação. A conversa deixa de ser sobre a pessoa e passa a ser sobre nós. 

Existe uma diferença entre ouvir e escutar. Ouvir é receber as palavras. Escutar é tentar compreender o que existe por trás delas. É permitir que o outro termine o raciocínio antes de começarmos a construir o nosso. 

Só que vale fazer uma distinção importante: nem todo silêncio em uma reunião é sinônimo de um grupo que está apenas escutando com atenção. 

É claro que existe o silêncio saudável: às vezes, a pessoa está apenas pensando, processando a ideia, ou prefere não entrar em uma discussão que não agrega. O silêncio reflexivo ou respeitoso é natural em qualquer grupo maduro. 

O perigo real está no outro extremo, quando a pessoa está em silêncio não por escolha ou respeito, mas porque não se sente segura, sente que nunca é ouvida ou já desistiu de tentar. 

O problema começa quando o silêncio deixa de ser uma escolha e se transforma na única opção. 

Talvez você mesmo já tenha pensado em dar uma sugestão em uma reunião e desistido. Já tenha percebido algo que poderia ser melhorado, mas pensado: “Não adianta falar”. Ou já tenha discordado de uma decisão e preferido ficar quieto para evitar uma discussão. É por isso que um ambiente saudável não é aquele em que todo mundo fala o tempo inteiro. É aquele em que as pessoas sabem que podem falar quando precisarem. 

E aqui está a parte mais difícil: não basta dar espaço para que as pessoas falem. É preciso saber o que faremos quando elas realmente falarem. 

Porque é muito fácil defender a liberdade de expressão quando ninguém discorda da gente. Difícil é ouvir uma opinião que incomoda. É receber uma crítica sem imediatamente procurar uma justificativa. É descobrir que alguém enxergou uma situação por um ângulo que nós não percebemos. 

Discordar não é desrespeitar. Eu posso não concordar com sua ideia e continuar respeitando você. Posso enxergar uma situação de outra maneira sem considerar que você está errado em tudo. E alguém pode discordar de mim sem estar contra mim. 

O problema começa quando transformamos toda conversa em uma disputa para descobrir quem está certo. Vamos admitir: é bom ter razão. Dá uma sensação quase irresistível. O problema aparece quando precisamos ter razão o tempo todo. Nesse momento, deixamos de conversar para começar a competir. Queremos apresentar o melhor argumento, dar a última palavra e vencer. 

Só que, se pararmos para prestar atenção, percebemos que talvez aquela ideia que descartamos tenha algo de valioso. Talvez a crítica que nos incomodou traga alguma verdade. Talvez aquela pessoa que achamos que estava nos desrespeitando esteja apenas enxergando um problema que ainda não conseguimos ver. 

Ter maturidade não significa nunca errar. Significa também conseguir dizer: “Eu não tinha pensado dessa forma”. Ou simplesmente: “Me explica melhor”. Essas frases não diminuem ninguém. Pelo contrário, mostram que não precisamos saber tudo, nem ter sempre a melhor resposta. 

No mundo do trabalho, convivemos com pessoas que possuem histórias, diferentes das nossas. É natural que existam opiniões divergentes. E essa diferença é justamente uma das coisas que mais podem nos fazer crescer. 

Nem sempre uma boa conversa termina com duas pessoas pensando da mesma maneira. Às vezes, ela termina com duas pessoas entendendo melhor por que pensam diferente. E isso já é muita coisa. 

Por isso, a pergunta mais importante não seja apenas “quando foi a última vez que alguém discordou de você?”. 

Talvez seja: quando alguém discordou, você realmente escutou ou estava apenas esperando a sua vez de falar? 

Que tal um pequeno exercício esta semana? 

Na próxima vez que alguém discordar de você, não pense imediatamente no que vai responder. 

Não interrompa. Não se defenda. Não tente convencer. 

Apenas escute até o fim. Depois, antes de responder, faça uma pergunta: “Você pode me explicar melhor o que você quis dizer?” 

Porque ouvir alguém que pensa como nós é fácil. O verdadeiro desafio começa quando alguém pensa diferente. 

Valter Bosqueti

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