Enquanto pesquisava para escrever esta coluna, me deparei com o seguinte dado: um em cada dez trabalhadores brasileiros já foi demitido por uso indevido do celular no emprego de suas funções. Considerei um número razoável de incidências, ainda mais considerando que não existe uma legislação trabalhista específica sobre o tema, ficando a cargo das instituições empregadoras desenhar uma política interna a respeito da questão do uso do celular no ambiente laboral.
Criou-se em nosso tempo o que está sendo chamado de Economia da Atenção, onde, devido ao grande volume de informações e à alta conectividade, a atenção das pessoas é disputada o tempo todo pelos mais diversos tipos de aplicativos e serviços, tornando a atenção uma “mercadoria” inflacionada. A grande questão é que a atenção sempre foi vista como peça-chave da produtividade do trabalhador, além de ser fator fundamental para a sua segurança, principalmente diante de trabalhos perigosos.
Sendo assim, nós, trabalhadores, vivemos o dilema entre ter que conhecer as ferramentas tecnológicas, saber utilizá-las da melhor forma possível e sermos produtivos, ao mesmo tempo que a conexão com a internet e as redes sociais nos expõem a notificações e a essa Economia da Atenção, que tenta capturar e comercializar o nosso foco e os nossos dados. Na própria pesquisa encomendada pela gigante da tecnologia Amazon, constatou-se que “93% dos trabalhadores brasileiros têm criatividade e concentração comprometidas por dispositivos conectados à internet”, demonstrando um anseio por menos interrupções e não por mais funcionalidades no uso dessas ferramentas.
Temos também a problemática de como o uso não comedido das redes sociais leva a padrões de uso semelhantes aos de um vício, causando ansiedade, depressão, sofrimento psicológico, sinais de perda de controle e negligência de atividades importantes. Além disso, outros estudos indicam problemas como: redução da memória de longo prazo, da memória prospectiva e da memória cotidiana, prejuízos também na atenção e na concentração, piorando a capacidade de tomada de decisões, prejuízos emocionais, levando à piora na saúde mental, isolamento e nomofobia. Não à toa, emprega-se até mesmo o termo “demência digital” para essa transformação empregada na cognição humana.
Para agravar a situação, o cérebro dos jovens (que está em um período de formação) e das novas gerações, que já interagem com essas ferramentas digitais conectadas desde a mais tenra idade, está muito mais vulnerável a essas problemáticas apontadas, fazendo com que os dados apresentados pela recente Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), tratando sobre a saúde mental da juventude brasileira, sejam preocupantes, principalmente dentro do recorte do gênero feminino, que enfrenta padrões estéticos excessivos, levando à sensação de inadequação e baixa autoestima, devido a inseguranças com o corpo, entre outros fatores.
O mundo ainda caminha a passos lentos na regulamentação do tema, onde o uso das redes e as análises sobre os seus impactos na sociedade ocorrem de forma concomitante. A grande questão é discutir como fazer com que essas ferramentas não atendam apenas aos interesses privados das grandes empresas de tecnologia, mas passem a atender os interesses de seus usuários, que querem se entreter, se informar, se comunicar e conectar, sem ter que renunciar à sua saúde mental, à sua produtividade e ao bem-estar das futuras gerações. Qual é o melhor caminho para solucionar esse dilema que enfrentamos?
Instrutor Francisco C. de Medeiros



Uma resposta
Excelente reflexão! Parabéns pela abordagem e por nos provocar a pensar sobre a importância do equilíbrio e do uso consciente das ferramentas digitais.