Confesso que nunca fui exatamente um fã do Homem-Aranha. Talvez eu esteja cometendo uma heresia para quem cresceu acompanhando o personagem, mas o escalador de prédios, que vive de cabeça para baixo, nunca esteve entre os meus favoritos. Mas, como podemos tratar o filme como uma espécie de esquenta para o grande lançamento da Marvel neste ano, Vingadores, resolvi dar uma chance ao aracnídeo.
E foi entre uma pipoca e outra, fazendo o terrível exercício de comparar as aventuras que aconteciam na tela com as dificuldades que enfrentamos nessa batalha que é a vida profissional, que uma pergunta sincera me veio à cabeça:
E se o seu superpoder estiver atrapalhando sua carreira?
Possivelmente, algumas das características que tornam alguém extraordinário também podem ser exatamente aquelas que começam a atrapalhar essa pessoa.
Calma. Não vou contar o filme. Zero spoiler por aqui. A ideia é falar sobre algumas coisas que eu vi no filme e que aparecem todos os dias nas empresas,
No trabalho, também existem “super-heróis”. É fácil encontrar aquele profissional que resolve tudo, que nunca diz não, que quer entregar melhor e mais rápido, que dificilmente pede ajuda ou que parece incansável. À primeira vista, são profissionais incríveis. E muitas vezes são mesmo.
O problema começa quando aquilo que era uma qualidade passa a controlar todas as escolhas.
Uma pessoa comprometida pode ter dificuldade de desligar e isso virar excesso. O perfeccionista pode considerar que seu trabalho nunca está bom o suficiente. O profissional independente pode interpretar o pedido de ajuda como sinal de fraqueza. O competitivo pode transformar qualquer situação em uma disputa. O comunicativo pode falar muito, justamente quando deveria ouvir. E o dedicado que deseja muito ser reconhecido pode, aos poucos, começar a viver em função da aprovação dos outros, transformando isso em ansiedade.
Talvez o problema não esteja no superpoder. Talvez esteja em não saber quando usá-lo. Equilíbrio é tudo.
E quando você ainda está descobrindo quem é?
Para quem está começando a carreira, tudo isso pode ser ainda mais confuso. São muitas mudanças acontecendo ao mesmo tempo: novas responsabilidades, novas relações, primeiro emprego, primeiro chefe, primeiro feedback que nem sempre é aquilo que gostaríamos de ouvir, primeiro erro que traz consequências e a descoberta de que ser bom tecnicamente não resolve tudo.
É uma fase de descobertas, inclusive sobre quem você é.
E talvez essa seja uma das partes mais difíceis do início da vida profissional: você precisa construir uma identidade enquanto ainda está tentando descobrir qual é a sua.
Não sofremos porque não sabemos quem somos. Sofremos porque estamos tentando desesperadamente parecer alguém. Isso acontece com muita força quando alguém está começando a carreira, mas, se formos honestos, não fica restrito aos primeiros anos profissionais.
O problema é que, nessa comparação, podemos começar a construir uma carreira baseada menos em quem somos e mais naquilo que acreditamos que precisamos parecer. E quando usamos a régua do outro para medir nossa própria carreira, quase sempre saímos perdendo. A comparação que começou como inspiração pode se transformar em desânimo, na sensação de estar ficando para trás e até na vontade de desistir.”
Não existe nada de errado em querer fazer o melhor, assumir responsabilidades ou buscar reconhecimento, nem construir uma identidade se inspirando em pessoas que você admira, mas ser profissional não significa descobrir imediatamente quem você é. Significa experimentar, errar, aprender e, aos poucos, escolher o que faz sentido para você.
Referência inspira. Comparação aprisiona.
E se o jovem ainda não sabe quem é, como esperamos que ele descubra sozinho?
Talvez seja justamente aí que o papel da liderança se torne tão importante.
O líder não deve construir a identidade do jovem. Deve criar condições para que ele a construa.
Desenvolver pessoas também é ajudá-las a fazer perguntas que nem sempre são fáceis de responder: No que eu sou bom? Onde preciso melhorar? O que faço bem, mas preciso aprender a dosar? Em que momentos preciso pedir ajuda? Que tipo de profissional quero me tornar?
E isso não acontece apenas em grandes programas de desenvolvimento. Acontece nas conversas do dia a dia, em um feedback bem dado, na orientação depois de um erro, na oportunidade de assumir uma nova responsabilidade, na liberdade para fazer perguntas e, principalmente, na segurança para dizer:
“Eu ainda não sei.”
Talvez uma das maiores contribuições de um líder não seja ensinar alguém a ser um super-herói. Seja ajudar essa pessoa a descobrir quem ela é, e que não precisa ser um super-herói o tempo todo.
E é justamente nessa tentativa de provar que estamos prontos que, muitas vezes, começamos a exigir de nós mesmos mais do que o momento pede. Queremos demonstrar que damos conta, assumir responsabilidades antes da hora, acertar sempre, não demonstrar insegurança e mostrar que somos capazes de acompanhar quem já está alguns passos à nossa frente.
Só que desenvolvimento não acontece por decreto. Ele precisa de tempo, experiência, erros, acertos e aprendizado.
E quando tentamos acelerar esse processo, nossas melhores características podem, em determinadas situações, transformar-se justamente nos nossos maiores obstáculos. Provavelmente maturidade profissional seja justamente aprender a usar aquilo que temos de melhor, sem permitir que isso nos controle.
Qual é o seu superpoder no trabalho?
você já percebeu o que acontece quando ele passa do ponto?
Porque talvez o desafio não seja diminuir aquilo que temos de melhor.
É aprender a usá-lo a nosso favor.
Valter Bosqueti

Referências: MARVEL. Spider-Man: Peter Parker – In Comics. Disponível em: Marvel – Spider-Man. Acesso em: 27 ago. 2026.


Respostas de 15
A grande questão é que tentar resolver tudo sozinho e parecer impecável no trabalho só gera sobrecarga. Nossas maiores virtudes viram um obstáculo quando não sabemos impor limites. O verdadeiro crescimento profissional não é sobre ser imbatível, mas sobre reconhecer o próprio limite e saber a hora de pedir ajuda.
Rodrigo Dos Santos
Turma 15
Muito interessante sua análise, Valter, meus parabéns. Nós, como jovens aprendizes, temos bastante dificuldade com essa questão de se comparar com o próximo e com aquele pensamento de “o que eu quero ser na vida?” ou “no que eu sou bom?”. Na verdade, muitos não sabem, mas isso faz parte de nossas vidas. O que devemos fazer é nos arriscar para encontrar o que nos cativa e não ter medo do processo.
Turma 44 Instrutor Ricardo Barbalho.
Que legal, amei saber mais!
Há uma situação similar no meu trabalho, sobre se inspirar muito em outra pessoa.
Nunca deixei que isso virasse um problema, mas é bom ter a perspectiva de que pode vir a ser, afinal, é sempre melhor prevenir a remediar.
Turma 40
Instrutor Ricardo.
Incrível analise, Valter. Parabéns!
Me identifiquei com o artigo principalmente na questão da autocobrança. Tenho o hábito de querer fazer tudo da melhor forma possível e, muitas vezes, acabo sendo mais exigente comigo mesma do que deveria. A leitura me fez pensar que buscar bons resultados é importante, mas aprender a reconhecer o que já fazemos bem e respeitar nossos próprios limites também faz parte do processo.
Achei o artigo muito interessante pela forma simples e criativa de abordar situações que fazem parte do nosso dia a dia profissional. A comparação com o Homem-Aranha torna a leitura leve e ajuda a perceber que crescer profissionalmente também significa reconhecer nossos limites, aprender com os erros e estar aberto a pedir ajuda quando necessário
Texto excelente! Parabéns Valter!
Gostei muito da reflexão que o artigo traz, principalmente sobre como nossas maiores qualidades também podem se tornar nossos pontos de atenção quando não sabemos dosá-las. A analogia com os “superpoderes” deixa a leitura leve e, ao mesmo tempo, nos faz refletir sobre autoconhecimento, maturidade profissional e sobre a importância de uma boa liderança nesse processo de desenvolvimento.
Realmente, Valter… Seja nas telonas ou nos quadrinhos, todo herói tem um superpoder, mas também enfrenta o desafio de entender como usar essa força ou habilidades.
Talvez a verdadeira jornada (e uma difícil aventura) seja descobrir quando essa força nos impulsiona e quando começa a pesar.
“Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades”
Adorei a reflexão!
Excelente conteúdo! Parabéns Valter.
Que reflexão necessária! Às vezes, estamos tão focados em potencializar nossas qualidades que esquecemos que até nossos pontos fortes precisam de equilíbrio.
No ambiente profissional, reconhecer limites, saber ouvir, pedir ajuda e entender que não precisamos provar nosso valor o tempo todo também faz parte do desenvolvimento.
No fim, talvez nosso maior “superpoder” seja justamente conhecer a nós mesmos.
Excelente reflexão: maturidade profissional é reconhecer nossos pontos fortes e aprender a usá-los com equilíbrio, sem deixar que aquilo que nos destaca se torne nosso maior obstáculo.
ERxcelente reflexão: maturidade profissional é reconhecer nossos pontos fortes e aprender a usá-los com equilíbrio, sem deixar que aquilo que nos destaca se torne nosso maior obstáculo.