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Cultura também é educação: o que a música ensina para além da música

Quando falamos em educação para crianças e adolescentes, normalmente pensamos naquilo que um aluno precisa aprender para, basicamente, avançar na escola: leitura, escrita, matemática, ciências, história… São conhecimentos fundamentais, claro. Mas é possível ir além, e entender que a formação pode (ou deve) envolver diversas outras capacidades, como aprender a se concentrar, a interpretar informações complexas, controlar seus impulsos, lidar com frustrações, expressar ideias e se relacionar com outras pessoas.

É nesse ponto que a cultura encontra a educação.

Dentre as muitas possibilidades de disciplinas culturais, a música oferece uma combinação bastante interessante entre conhecimento, prática e experiência. Aprender um instrumento exige que o aluno leia, pense, perceba, memorize, movimente, escute e tome decisões rapidamente, sem parar.

E quanto mais “difícil” o instrumento, mais clara fica a dimensão cognitiva desse aprendizado.

Na flauta transversal, por exemplo, tocar uma única nota envolve a coordenação precisa entre respiração, embocadura, direção e velocidade do fluxo de ar, os movimentos dos dedos, percepção auditiva e afinação. O músico (ou o aluno) precisa produzir o som e monitorá-lo. Se a nota não corresponde ao que pretendia, são necessários imediatos pequenos ajustes na execução. Tudo isso acontecendo ao mesmo tempo.

Do ponto de vista neurológico, estamos falando de uma atividade multissensorial. Circuitos auditivos precisam trabalhar em conjunto com áreas motoras e pré-motoras, estruturas cerebelares responsáveis pela coordenação e temporização dos movimentos e regiões envolvidas em atenção, memória e controle executivo.

O piano, outro exemplo, apresenta seus próprios desafios. As duas mãos trabalham ao mesmo tempo, mas executam linhas musicais independentes, com ritmos, articulações e intensidades diferentes. O pianista (ou aluno) lê duas linhas em claves distintas (normalmente clave de Sol, e clave de Fá), transforma essas informações visuais em comandos motores e precisa manter as duas mãos sincronizadas, mas sem torná-las idênticas.

Pesquisas com pianistas utilizando neuroimagem mostram diferenças na ativação de regiões envolvidas na coordenação bimanual, incluindo áreas pré-motoras, córtex pré-frontal, cerebelo e gânglios da base. A prática ao longo do tempo torna esse sistema mais eficiente para executar movimentos complexos.

Diversos estudos encontram associações entre treinamento musical e funções executivas como controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva, além de capacidades relacionadas à autorregulação e ao controle do comportamento. Falando de forma mais simples – me perdoem os temos técnicos neurológicos – o aprendizado musical ajuda a desenvolver a atenção, a memória, o autocontrole e a flexibilidade para lidar com diferentes situações e problemas.

E fica ainda mais interessante quando o aprendizado deixa de ser individual, e entra na prática em grupo.

Tocar em uma orquestra exige um conjunto de competências que vai além do domínio técnico do instrumento. O aluno precisa ouvir os outros músicos, acompanhar o maestro, respeitar o tempo coletivo, reconhecer quando deve ser o protagonista e quando precisa apenas acompanhar a parte de outra pessoa.

Um erro individual pode afetar o conjunto inteiro. Por outro lado, a força positiva de um conjunto sobrepõe um erro pontual individual. O indivíduo ajuda o grupo, e o grupo ajuda o indivíduo.

Em uma orquestra são treinadas habilidades que, já na vida adulta, vão se relacionar com o que o mercado de trabalho chama hoje de soft skills.

Conhecimento técnico é indispensável. É o que permite executar uma função. Mas empresas precisam de pessoas capazes de trabalhar em equipe, se comunicar, receber críticas, administrar conflitos, se adaptar e assumir responsabilidades. Existe uma frase bastante conhecida no mundo corporativo que evidencia esse conceito: “companies hire for skill and fire for behavior” – empresas contratam pela habilidade e demitem pelo comportamento.

Nesse sentido, uma orquestra é um ambiente extraordinário para este desenvolvimento. O aluno precisa dominar sua hard skill — seu instrumento — enquanto aprende uma série de soft skills. Essa prática ensina que competência individual e resultado coletivo precisam caminhar juntos.

É por isso que países com sistemas educacionais reconhecidos tratam a música como parte da formação básica. Na Finlândia, música integra o currículo nacional e se relaciona a aprendizagem, expressão e interação. Na Inglaterra, o currículo inclui canto, prática instrumental, composição e apresentações – individuais e em conjunto.

O objetivo não é transformar toda criança em músico profissional, de forma alguma. É utilizar essa disciplina para promover maior desenvolvimento humano.

No Brasil existe a dificuldade ao acesso, majoritariamente restrito, devido às barreiras sociais. Somos um país profundamente musical, a música está presente em praticamente todos os espaços da nossa cultura. Ouvir música, porém, é muito diferente de receber educação musical.

Para a grande maioria, o custo de aulas, instrumentos e ambientes adequados para esta aprendizagem estão fora do alcance financeiro. Aulas de música simplesmente não cabem no bolso da maioria dos brasileiros.

É nesse espaço que projetos de educação musical assumem uma dimensão social muito valiosa. Um professor, um instrumento, um lugar para estudar e um grupo para tocar oferecem uma experiência que dificilmente seria possível de outra maneira.

Quando uma criança aprende a tocar, estamos formando mais do que um músico, estamos desenvolvendo alguém capaz de concentrar-se, persistir diante da dificuldade, controlar seus impulsos, trabalhar em grupo e encontrar satisfação em fazer bem aquilo que depende de muita prática.

No palco, isso pode resultar em música. Na vida, pode resultar em muito mais.

*O ITEMM oferece aulas de música para crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social através do Projeto Exaltação. Conheça um pouco mais desse projeto no vídeo abaixo.

Cainã Marin

 

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Respostas de 2

  1. Que projeto lindo! 💚 Que privilégio fazer parte do ITEMM e de iniciativas que realmente fazem a diferença.

  2. Acredito muito no poder da música como ferramenta de transformação. Mais do que aprender um instrumento, crianças e jovens desenvolvem disciplina, confiança, convivência e novas perspectivas para o futuro. É muito gratificante ver o ITEMM contribuindo para isso por meio do Projeto Exaltação.

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